Em Outros Braços

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Ele perdera a noção da hora, como sempre. Olhou para os lados atordoado após perceber que caíra no sono, seu pescoço doía de forma estranha e ele sentia o torcicolo em potencial que vinha se formando aos poucos durante todas aquelas noites em que dormira no sofá. A TV emitia um chiado estranho e aparentemente sua gata havia desconectado algum dos fios. Ele bocejou e se espreguiçou, sentindo cada articulação de seus braços e dedos reclamando. Talvez fosse um aviso de que era a hora de parar com todo aquele auto punimento inconsciente.
Naquela madrugada chuvosa, em algum lugar do cosmos e todas as suas facetas, eles comemoravam seus quatro anos juntos. Mas era um lugar distante, bem distante, pois em seu “aqui e agora” eles nunca haviam passado tanto tempo sem se falar. Talvez se ele tivesse sido menos insensível, menos indiferente, menos arrogante... Talvez, só talvez, eles ainda estivessem juntos. As coisas se organizavam lentamente em sua cabeça e tudo aquilo que havia sido despejado aos ventos há menos de um mês passava a fazer sentido. A culpa o consumia e se pudesse olhar no espelho para analisar sua própria alma, provavelmente estaria em decomposição. Ele se levantou do sofá amarelo, caminhou até o quarto e agradeceu mentalmente por não ter como enxergar aquilo que sentia.
A verdade é que ele realmente não sabia dar valor à nada nem ninguém. Sua cabeça coçava, as pálpebras pesavam e o Sol começava a nascer trazendo cores nostálgicas para seu lençol. Era essa a sensação de ser trocado, afinal? Era essa a sensação de traição da qual tanto ouvira falar? Deitou-se tentando se convencer de que talvez fosse só sono, mesmo, talvez no dia seguinte passasse. Mas não era assim que a vida funcionava, ela não era movida por expectativa, nunca fora e ele teria que aprender a lidar com aquilo, pelo menos até encontrar outro corpo que se encaixasse tão bem ao seu. 

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